
Outro dia, ao acordar, senti o perfume das flores quando abri a porta para o jardim. Só deu tempo de colher as folhas secas e de arrumar algumas plantas. Momentos efêmeros que passam e perdemos sem que possamos impedir. Queria ficar por ali um pouco, mas não podia. O cheiro mudou, o vento mudou. Eu teria que ser rápida e voltar para dentro da casa.
Estava prestes a perder o brilho do sol e o perfume do jardim, pelo cinza e pelo cheiro de grama e de terra molhadas. A nuvem escura vinha vindo rápida.
Em nossas vidas, as coisas acontecem assim: elas estão aqui e, de repente, as perdemos. Não é porque não as cuidamos, mas porque são assim mesmo. É a vida, tudo muda!
Apenas na morte é que nada muda, continua tudo escuro e obscuro. Não se obtém nela qualquer mudança que faça crescer ou renovar. A morte para, impinge, decide, reduz! E quem fica cresce em outras direções. Acende-se a falta que se repete em cada marca de quem se foi. Mas, na vida, da mesma maneira como perdemos o calor do sol e o cheiro das flores momentaneamente, o dia trás certo por alguns instantes ou horas, a chuva de verão. Depois veem novas cores, outros aromas, novos brilhos. Não podemos perder a ESPERANÇA.
Ainda é verão, mas chove. Foi a nuvem carregada quem escureceu o dia, prenunciando o colorido e o calor. Dava para me imaginar na praia e ver as maravilhosas cores do mar, com o infinito pintado de azul cobalto, decrescendo em azul celeste, tornar-se azul turquesa e arrebentando em brancas ondas aos meus pés. Senti-me descalça com uma roupa de banho, sacola na mão, a andar cheirando a maresia. Senti o calor do sol na pele e o vento fresco da praia, até quando a chuva chegou.
Não, nada disso se fez. Ela me levou para outros caminhos que também me fizeram sentir a grandeza do poder do Alto. Pude ver a minha pequenez em não poder evitar essa mudança. E ela me reportou aos momentos de alegria de infância, dos banhos na bica do telhado, como nos lembramos sempre, meu irmão e eu.
Quando eu era criança, havia dias como esse, de chuva com sol; e nós dizíamos: “chuva com sol, raposa casando a avó!” Era o casamento de uma velha raposa, que “acontecia” nesse momento de nuvem chuvosa e que depois de ela passar, regando as plantas e encharcando o chão, trazia outra vez o brilho do sol, refletido nas gotículas coloridas que ficaram sobre as folhas e flores do jardim.
Creio que era por isso que a velha raposa casava nesse momento: para que as gotículas coloridas enfeitassem o seu momento de amor. Momentos como esse a gente não pode escolher. Eles nos vem e nós agradecemos ao Criador em poder ter vivido tudo isso.
São os pequenos momentos que preenchem a nossa vida de alegria.
Vania Viana
Maceió
10.03.2008
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