domingo, 19 de setembro de 2010


Um dia eu pus um pé de um sapatinho azul na janela do meu quarto. Eu era pequenina e deveria ter quatro ou cinco anos de idade e essa imagem não sai até hoje da minha lembrança. É engraçado como certas coisas ficam registradas em nossa memória como se tivessem sido mascadas a ferro e fogo, enquanto que tantas outras, as quais pensamos jamais esquecer, são varridas da memória!
Eram sapatinhos de festa, mas eu não os tirava dos pés. Queria ficar o dia todo com eles. Mas meus pés cresceram naturalmente e, como eu não aguentava mais o aperto, minha mãe cortou os bicos para caber por mais algum tempo.
Eu acreditava que o papai Noel vinha na noite de Natal e coloquei um pé na janela do quarto que dava para o corredor avarandado e florido da casa que morávamos. Imaginava que ele viria pela lareira – e nem havia nessa casa - nem nunca o vi chegando. Imaginava que ele tinha um gordinho vermelho - era eu quem tinha! Que era gorducho e tudo mais, mas nunca nem encontrei com ele nem nunca me deixou presentes no sapatinho. Ainda hoje lembro esses momentos e sempre tenho a sensação de que ele vai chegar no dia de natal. Talvez seja por esse motivo que a troca de presentes de “amigos secretos” me traz, mais ou menos, a mesma sensação.
O poeta é um arqueólogo. Ele desenterra coisas nas entrelinhas da memória, desde a mais tenra infância, para desvendar os segredos mais bobos que guardava, e os revela quando, ao evocá-los, os escreve. Daí, a criança vem à tona, faz a cena ser atual, e é tão preciosa quanto uma descoberta arqueológica.
Creio que o que restou dessa história de papai Noel, entre tantas outras coisas, foi a ESPERANÇA. Foram as lembranças desse sapatinho, além de ser registro de uma experiência singela, o que absorvi do significado lúdico e simbólico das histórias infantis, e que vingam até hoje com as pessoas. Por sinal as histórias da ‘carochinha’ já não são mais tão simplórias como essas. O bando de heróis perversos inventados pela TV para as crianças dessa época em diante, já dão mostras dos problemas de condutas desviantes nos adultos de hoje.
Aprendi a esperar pelo natal, por um papai Noel que sempre vem de alguma maneira. Aprendi a ler os bons sentimentos que nos cercam como o carinho, no dia a dia e muito mais nessa época. Aprendi novas formas de amor, até inexplicáveis, às vezes, para se dizer da razão da nossa vã filosofia. Aprendi que, apesar de buscarmos a paz, existirão sempre divórcios, as relações vazias e as sem sentido; que crianças maltratadas e abandonadas sempre estiveram fora dos olhares de amor dos pais ou responsáveis; que tem gente sem tempo e sem carinho, ou para dar, ou para receber.
Que por razões estranhas, casais permanecem juntos apenas para trocas de agressões. Aprendi que irmãos, filhos ou pais podem ser outros que não tenham o mesmo sangue e que poderemos amar os que estão à distância ou ao nosso lado, em silêncio. Aprendi que estar ao lado nem sempre é ato físico: longe, às vezes, também é perto. Que a melhor forma de domínio e de querer mudar é ter domínio próprio e que este não provém apenas de nós, é dom do Espírito.
Que estar à espera da providência divina não é deixar de fazer o que deve ser feito, fazer a nossa parte, essa é a melhor forma de viver. Que nesse mundo tão confuso e pleno de contradições intrigantes, bom é permanecer na fé e cultivar os bons relacionamentos, as boas lembranças, até mesmo de um sapatinho azul cortado no bico, à espera de um papai Noel, que talvez não nos venha no dia de natal, mas certamente virá em dias inesperados, e que são esses momentos que descobrimos que temos esperança, apesar de tantos desenganos e que o amor nasce em nossos corações das pequenas coisas.
A esperança acabou de chegar pra você. Tomara que você tenha resgatado uma boa lembrança!

Vania Viana - Maceió – 26.12.2009

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